Ano Carvalho, celebrando a dignidade

Eduardo Maragoto

As Letras de 2020 fôrom finalmente para Carvalho e até é provável que os condicionamentos sanitários deste ano obriguem a adiar a homenagem para 2021, vista a impossibilidade de abordar a sua figura e ideário no ensino e na sociedade com a calma que precisa uma figura tam completa.

Carvalho Calero é um desses intelectuais que marcam umha sociedade por décadas. Antes do seu nomeamento para as Letras de 2020, a sua candidatura fora acumulando umha força sem precedentes dentro da Real Academia Galega. Fora da rua Tabernas também se ouviu o aplauso generalizado de todas as pessoas preocupadas pola nossa cultura, que nos últimos anos denunciavam que o facto de tentar censurar o seu ideário servisse para postergá-lo indefinidamente. A injustiça finalizou, mas antes de finalizar deixou umha pegada paradoxalmente positiva, pois a censura sofrida até hoje acabou por tornar maior a lenda, assente no firme compromisso de Carvalho com os seus ideais.

Sem tirar nenhum mérito a todas e a todos os anteriores, nom se trata de mais um escritor em galego, e nom admiraria que se convertesse num exemplo de dignidade para as novas gerações, como já tinha sido importante para os seus coetâneos nas diferentes fases da sua vida. Mui novinho já redige junto com Lois Tobio a proposta do Seminário de Estudos Galegos para um anteprojeto do nosso primeiro Estatuto de Autonomia. A sua adesom à República leva-o a sofrer prisom e afastamento do ensino público durante décadas, mas o seu compromisso com a nossa língua foi em aumento, escrevendo o primeiro romance em galego após a guerra e a gramática e a história da literatura mais importantes até entom.

Mas nom me debruçarei agora sobre assuntos que serám abordados profusamente neste site. Só acho necessário lembrar aqui um episódio. Em 1979, a Junta Pré-Autonómica encarrega-lhe a elaboraçom de umhas normas para a Administraçom que vigoram dous anos. Som de filosofia reintegracionista, ainda que procurando o consenso com os sectores que nom compartilham essa via. Em 1982 as normas de Carvalho som retiradas polo conhecido Decreto Filgueira, que impom as que ainda atualmente se ensinam nas escolas, da autoria do Instituto da Lingua Galega (ILG). Começava a postergaçom de Carvalho e nascia o movimento reintegracionista.

Entre aquele Decreto e esta homenagem aconteceram muitas cousas, mas, junto com a Lei Paz Andrade aprovada em 2014, nom encontramos indícios de abertura institucional ao seu ideário desta magnitude. A AGAL, que se sente herdeira do legado carvalhano, só pode dar os parabéns e unir-se à celebraçom.

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email
Este sítio web utiliza 'cookies' próprias e de outrem. Ao premir aceitar, concordas com isto.