Vida de Ricardo Carvalho Calero

(Ferrol 1910 - Santiago 1990)

1º Primeiros anos
(Ferrol 1910-1926)

Primeiros anos

(Ferrol 1910-1926)

Nascimento (Ferrol, 1910)

Ricardo Carvalho Calero nasceu em Ferrol em 30 de outubro de 1910, no bairro antigo da cidade conhecido ainda hoje popularmente como «Ferrol Velho», na casa número 51 da rua de São Francisco. Na fachada desse edifício uma lápide lembra agora que ali nasceu o escritor.

Carvalho Calero aos seis meses de vida. Arq. PG

Seus pais eran Maria Dolores Calero Beltrán e Gabriel Ricardo Carballo Naya. O pai era empresário no campo dos equipamentos navais. Era uma família da burguesia comercial ferrolana.

Ricardo era o primeiro dos seis filhos que ia ter o casal.

1919: orfandade

A 21 de abril de 1919 morreu a mãe, quando Ricardo (o maior dos irmãos, como fica dito) tinha somente oito anos. O falecimento foi devido a uma epidemia de gripe, consequência da primeira guerra mundial.

Deveu de ser um duro golpe para a família. Por esses anos aconteceram ainda outras desgraças familiares. E, com o tempo, estes acontecimentos terão repercussões na situação económica da família.

É natural que esses acontecimentos tivessem repercussão tambén na psicologia dos meninos órfãos. O Carvalho Calero adulto, lembrando a tristeza que dera à sua infância a perda da mãe, era consciente do influxo que esse trauma infantil exercera na conformação do seu psiquismo, introvertido e prematuramente sério.

Estudos elementares e médios

O neno Carvalho foi aluno de um colégio privado, o Colegio Sagrado Corazón de Jesús, que dirigia o escritor Manuel Comelhas Coimbra.

Dom Manuel Comelhas Coimbra (Ferrol, 1853 – Mandiá (Ferrol), 1925) era um homem de grande prestígio e influência social em Ferrol. E na literatura galega ocupa um posto digno especialmente pela sua peça teatral Pilara ou grandezas dos humildes (estreada em 1919). No testemunho do Carvalho adulto é bem perceptível a admiração que aquele professor suscitara em ele quando neno.

A miña lembranza dos tempos da infáncia situa-me no Ferrol Vello; eu nascin no Ferrol Vello

Conversas en Compostela con Carballo Calero (1986) Partilhar

Estas lembranças do antigo mestre talvez expliquem algo da temporã afeição ao cultivo literário da nossa língua por parte de Carvalho, que se iniciou precisamente nesses anos em que era aluno do colégio de Comelhas.

Carvalho Calero e Mª Ignacia Ramos

Os primeiros escritos

Desde o tempo da adolescência, e já mesmo desde os anos infantis, começou a manifestar-se a sua vocação de escritor.

Os primeiros escritos publicados foram poemas: apareceram numa revista ferrolana intitulada Maruxa (1925-26). Algum desses poemas estava já em galego. E pelo mesmo tempo começou a colaborar, preferentemente com versos mas também com outro tipo de artigos, no jornal local ferrolano El Correo Gallego.

Destarte, quando sem ter chegado ainda a cumprir os 16 anos de idade Carvalho Calero ingressou na Universidade de Santiago, levava já consigo uma bagagem de publicações que, embora ainda algo imaturas como é natural, mostravam com claridade a firmeza da sua vocação de escritor, nomeadamente de poeta.

2. Na Universidade: Lider estudantil e galeguista (1926-1936)

Na Universidade: Lider estudantil e galeguista

(1926-1936)

Em Santiago: a carreira de Direito

Em outubro de 1926, quando ainda não cumprira os 16 anos, Carvalho Calero inicia os seus estudos universitários em Santiago.

Apesar de que a carreira de Filosofia e Letras era a especialidade que mais o atraía, como esse título oferecia menos saídas profissionais que o de advogado, optou, seguindo os conselhos familiares, por seguir a carreira de Direito. Alcançou o grau de licenciado em Direito na primavera de 1931.

Facultade de Dereito da Universidade de Santiago

Nos anos finais da sua carreira universitária de Direito, que vieram a coincidir com os tempos finais da monarquia de Afonso XIII, Carvalho foi também figura destacada no movimento estudantil compostelano.

No Seminário de Estudos Galegos

Embora o interesse pela cultura galega tivesse surgido em Carvalho já na etapa da adolescência ferrolana, como vimos, a chegada ao ambiente universitário significou a sua incorporação plena a esse mundo.

Imediatamente depois de chegar a Santiago, Carvalho entrou em contato com o Seminário de Estudos Galegos (SEG), uma instituição de iniciativa privada, que tinha como objetivo o estudo científico da realidade galega em todas as suas dimensões. Assim entrou em contato com as principais figuras do galeguismo cultural.

O meu galeguismo forxouse na convivencia cos galeguistas do Seminário de Estudos Galego

Conversas en Compostela con Carballo Calero (1986) Partilhar

A sua vida universitária esteve assim marcada, tanto como pelo ambiente da própria Universidade, pela convivência de estudo e inquietudes com os restantes membros do «Seminário de Estudos Galegos».

Atividade publicística

A introdução no ambiente universitário e sobretudo a adesão ao movimento cultural do galeguismo não fez senão intensificar no jovem Carvalho a sua vocação de escritor, nomeadamente de poeta.

Pelo mesmo tempo iniciou a colaboração na revista galeguista Nós, primeiro com poemas, logo também com artigos de crítica literária e recensões. Várias outras publicações periódicas receberam também a sua colaboração nesta época.

Em 1931 a editorial galeguista Nós publicou Vieiros, primeiro livro poético de Carvalho Calero em língua galega ou portuguesa. Nele recolhem-se poemas compostos nos anos precedentes (entre 1927 e 1930 aproximadamente).

A Segunda República espanhola (abril de 1931)

A proclamação da Segunda República espanhola, em 14 de abril de 1931, fez possível imediatamente dar corpo organizativo às velhas ânsias de que a Galiza tivesse uma entidade política própria.

Assim foi como, pouco tempo depois, dentro de um grupo de trabalho constituído no seio do Seminário de Estudos Galegos, Luís Tobio e Carvalho Calero redigiram em Santiago um anteprojeto de Estatuto galego, de concepção federalista, que se iniciava assim: “A Galiza é un Estado libre drento da República Federal Española” (Art. 1º).

Este anteprojeto, porém, não pôde depois ser aproveitado literalmente, pois a Constituição espanhola da República (que se aprovou algum tempo depois) resultou não federal mas unitária. No entanto, aquele esforço não deixou de exercer certa influência nos futuros textos estatutários galegos.

A fundação do Partido Galeguista (dezembro de 1931)

Em dezembro desse mesmo ano 1931 celebrou-se em Pontevedra a assembleia constituinte do Partido Galeguista. Carvalho Calero esteve ali presente e foi um dos fundadores do partido, ao lado de vultos de tão destacado relevo como Castelao ou Otero Pedraio.

Cunqueiro, Del Riego e Carvalho Calero (Compostela). Arq. PG

Carvalho conservaria sempre a nostalgia do Partido Galeguista, e a fidelidade ao seu ideário político. Na sua ancianidade gostava de recalcar que o Partido Galeguista fora o único partido a que ele pertencera.

Fim da estadia em Santiago (1932)

Terminada a fase de estudos universitários, concluiu a sua estadia em Santiago: Carvalho retornou à casa familiar de Ferrol. Poucas semanas depois de voltar a Ferrol, e provavelmente sob o seu impulso, constituiu-se na cidade o grupo local do Partido Galeguista.

A pesar de que sempre considerou que a sua vocação vital se desenvolvia no campo inteletual mais que no político, Carvalho dedicou durante os anos da Segunda República Espanhola (1931-1936) muitas energias à atividade política dentro do Partido Galeguista, com reuniões, discursos, conferências, artigos, etc.

A carreira de Filosofia e Letras

Como as suas preferências inteletuais não se viam satisfeitas na ideia de dedicar-se ao exercício da advogacia, decidiu imediatamente prosseguir por livre a carreira de Filosofia e Letras na Universidade de Santiago. Residindo em Ferrol acudia a Santiago para realizar os exames.

Em geral, estes anos ferrolanos estiveram dedicados sobretudo ao estudo. No entanto, não deixou de colaborar em múltiplas atividades coletivas, assim de naturaleza política como cultural.

Funcionário do concelho de Ferrol (abril de 1933)

Se não ia exercer a advogacia, necessitava buscar um trabalho de que viver, e foi assim como decidiu apresentar-se a umas oposições ao corpo administrativo de funcionários convocadas pelo concelho de Ferrol. No mès de abril de 1933 realizaram-se as provas, com um tribunal presidido por Jaime Quintanilha. Carvalho Calero obteve o primeiro posto. Assim entraria a trabalhar como funcionário do concelho.

Casa do Concelho de Ferrol, anos 30

Outubro de 1933: boda

Em 1933 casou em Lugo com Maria Ignácia Ramos Díez (1909-2001), companheira de estudos univrsitários, nativa do concelho de Baleira (província de Lugo). A moça era agora licenciada em Filosofia e Letras, na rama de História. O casal teria duas filhas.

Será ao longo de toda a vida de Carvalho a sua fiel companheira, até as horas finais, e colaboradora na sombra em todos os seus trabalhos. Do influxo da sua esposa houve outra consequência importante tanto para a experiência vital de Carvalho Calero como também para a sua obra literária: foi o descobrimento dos valores humanos da sociedade rural galega.

Também Maria Ignácia Ramos foi escritora de narrativa em galego, publicada sob os pseudónimos «Silgar» e «Maria Silgar».

A Madrid: junho de 1936

Em janeiro de 1936 Carvalho concluiu a carreira de Filosofia e Letras. E nos últimos dias de junho de 1936 viajou a Madrid para participar numas oposições ao ensino oficial. Pensava retornar um mês mais tarde aproximadamente, mas os acontecimentos marcariam-lhe caminhos imprevistos.

Em Lugo ficava a sua mulher, com familiares, próxima a dar a luz o primeiro filho (que seria uma nena).

3. Guerra, cárcere e ostracismo (1936-1950)

Guerra, cárcere e ostracismo

(1936-1950)

Os primeiros dias da guerra civil

A 18 de julho de 1936 alastrou por grande parte do Estado a rebelião militar que significaria o início de uma sangrenta guerra civil, de quase três anos de duração (do 18 de julho de 1936 até 1 de abril de 1939).

A Galiza ficou, logo depois das primeiras horas, em mãos dos militares levantados, enquanto Madrid seguiu sob controlo do governo republicano até os dias finais da guerra.

Cruceiro “Almirante Cervera”, tomado en Ferrol e decisivo na caída de Ferrol e da costa Ártabra a mans dos golpistas franquistas

Situados assim a Galiza e Madrid nos bandos opostos, para Carvalho Calero, que se achava ocasionalmente em Madrid, ficou cortada a possibilidade de comunicar-se diretamente com a família na Galiza. A última notícia que dela lhe pôde chegar antes de ficar interrompidas as comunicações foi o telegrama que lhe dava a saber o nascimento do filho esperado: que era uma menina, e que tanto ela como a mãe se encontravam perfeitamente.

Iniciada a guerra, Carvalho Calero participou na defesa de Madrid. Resultou ferido nos olhos por efeito de metralha, embora não de gravidade.

Em Valência

Para formar oficiais o governo republicano pôs em marcha várias escolas militares, que organizavam cursos de breve duração. Carvalho Calero foi destinado a uma delas, em Paterna, a poucos quilómetros de Valência. Terminou o curso com o grau de “tenente em campanha”.

No exército de Andaluzia

Terminado o curso de oficiais em Paterna com o grau de «tenente em campanha», Carvalho Calero foi destinado ao Exército de Andaluzia: primeiro esteve destinado em Úbeda (Jaén) e depois na própria capital provincial. Como titulado em Direito, desempenhou ali a função de ajudante de um chefe de serviços jurídicos.

Durante a guerra não publicou nada, mas não abandonou o cultivo literário. Dessa época datam alguns poemas que logo seriam incluídos nos seus livros Anxo de terra (1950) e Poemas pendurados de un cabelo (1952).

Fim da guerra: juízo e condena

Carvalho Calero achava-se na cidade andaluza de Jaén quando, na primavera de 1939, concluiu a guerra civil espanhola com a vitória do exército de Franco. Os vencedores submeteram a juízo todos os oficiais rendidos. Carvalho, dada a sua militância galeguista durante o período republicano, foi condenado a doze anos e um dia de reclusão na própria cidade de Jaén.

No cárcere podia escrever, mas a censura não permitía usar outra língua que o castelhano. Escreveu então muitos poemas em língua castelhana, que deixou inéditos (e que se publicaram postumamente): um conjunto a que deu o título Avena loca; alguns romances de tema bíblico que articulou num livro intitulado Romancero de apócrifos y canónicos; e uma série de sonetos intitulada Teoria de Eva, constituída por retratos femininos de tipo genérico («La humilde», «La soberbia», «La melancólica»…).

Retorno à Galiza

Passados dois anos de reclusão, na primavera de 1941 ficou livre, mas como “penado em liberdade condicional” até o momento da extinção da pena de 12 anos.

Estabelecido novamente em Ferrol, as condições em que teve que sobreviver com a sua família não foram nada fáceis. Pouco a pouco pôde ir conseguindo algum trabalho docente em centros de ensino privado, em condições laborais precárias, impostas pelo feito de a condena judicial não permitir-lhe alcançar a categoria de professor oficial.

 Postal de Ferrol, 1945

A escrita libertadora

Nesta época escreveu muito, apesar de que o seu tempo livre era reduzido e as esperanças de poder publicar naquelas circunstâncias eram mínimas.

Escreveu então várias peças teatrais: IsabelA sombra de OrfeuFarsa das zocas A árbore.
Foi também então quando nasceram vários dos textos narrativos: o romance A gente da Barreira e as novelas «Os señores da Pena» e «O lar de Clara», que só tornaria públicas na sua edição definitiva da narrativa, Narrativa completa (1984).

Sem os sonhos, sem as utopias, a realidade tende a fossilizar-se em formas esgotadas.

Prólogo a Nimbos, de José Diaz Castro (1984) Partilhar

E escreveu, como sempre, poesia, que mais tarde faria parte dos próximos poemários Anxo de terra (1950) e Poemas pendurados de un cabelo (1952), e um breve poemário de índole popular, O trebo das catro follas (1944), que ficaria inédito até depois da sua morte.

Por outro lado, a través de modestas colaborações jornalísticas com comentários literários, foi-se configurando o vulto do que em poucos anos será um extraordinário investigador da nossa literatura, de crítica serena e perspicaz.

Carvalho Calero, último pola esquerda e estudantes do Fingoi de visita cultural. Arq. Fingoi

O romance A gente da Barreira

Carvalho pôde conhecer nas conversas da parentela da mulher a evolução de uma família fidalga, das terras do centro-leste da província de Lugo, que refletia un fenómeno frequente na história galega moderna: o decaimento da antiga aristocracia rural.

Por outro lado, visto que a guerra civil e a nova situação política da Espanha supuseram a destruição da cultura em língua galega, no momento em que se intentava empreender o caminho da reconstrução dava-se entre os preocupados por este labor um certo acordo em que havia já uma tradição consolidada de poesia e que convinha acentuar agora os esforços na prosa.

Deste conjunto de fatores nasceu o romance A gente da Barreira. Quando já a obra estava concluída, a “Editorial de los Bibliófilos Gallegos” (uma associação bibliófila com sede em Santiago) convocou em 1949 um concurso de romance galego: premiar-se-ia o melhor romance (“novela” em castelhano) de ambiente galego, que poderia estar escrito tanto em galego como em castelhano. O resultado do concurso, em que a obra de Carvalho resultou premiada, tornou-se público em abril de 1950.

Serão com bispo Ona de Chave. Carvalho Calero no centro Arq. Fingoi
4. O mestre galeguista (1950-1980)

O mestre galeguista

(1950-1980)

O Colégio Fingoi

Dom António Fernández Lôpez, ativo empresário e generoso mecenas da cultura galega, teve a ideia de construir em Fingoi –então lugar nas imediações da cidade de Lugo, hoje englobado já dentro da área urbana– um centro de formação de caraterísticas algo especiais, inspirado por uma concepção pedagógica renovadora e instalada na realidade galega. A pesar de não conhecer pessoalmente a Carvalho, com o assessoramento de amigos comuns de ambos, decidiu oferecer-lhe o cargo de diretor do Centro.

Assim, em 1950 Carvalho Calero estabelece a sua residência estável em Lugo, que se prolongaria durante quinze anos (1950-1965), nos quais exerceu a função de diretor responsável e de professor.

Havia que cumprir o velho preceito, mil vezes repetido e mil vezes esquecido, de que ensinávamos para a vida, e nom para a escola

Labor de investigação literária

Simultaneando o labor docente e pedagógico com a investigação pessoal, continuando o trabalho já iniciado anos antes, neste período lucense Carvalho estudou desde a perspetiva da crítica literária as obras mais importantes da literatura galega.

De então data a sua tese de doutoramento, apresentada em Madrid em 1954, sobre literatura galega moderna.

Integrado no grupo da Editorial Galaxia, que acabava de fundar-se, em Fingoi começou Carvalho o trabalho que levaria à publicação da sua obra mais monumental: a Historia da literatura galega contemporánea, publicada em 1963-1975.

1950. Fundação Galaxia. Carvalho Calero e António Fernández ao fundo. Arq. Fingoi

Em 17 de maio de 1958 ingressou na Real Academia Galega com um discurso que se publicaria o ano seguinte com o título Contribución ao estudo das fontes literarias de Rosalía.

A longa estadia de Carvalho em Fingoi ficou perpetuada no título de um dos seus livros poéticos: Salterio de Fingoy (1961).

O Centro de Estudos Fingoy

Sob o mecenato de Dom António Fernández Lôpez e a direcção de Carvalho Calero, o Colégio Fingoi foi, ademais de centro de formação de estudantes, centro de exercitação de docentes: figuras tão importantes na cultura galega como Bernardino Granha, Mêndez Ferrim e Arcádio Lôpez Casanova tiveram oportunidade de realizar ali as suas primeiras experiências como ensinantes.

No colégio de Fingoi instituiu-se ademais um centro de investigação linguístico-literária galega, que apoiou com subsídios e bolsas de estudo iniciativas nesse sentido num momento em que as instituições oficiais se cuidavam pouco deste campo.

Grande êxito de público e de crítica teve a coletânea de contos populares que levou o título Contos populares da provincia de Lugo (1963), da qual se publicou uma segunda edição em 1972.

Também foi fruto do apoio do Centro de Estudos Fingoy a edição crítica das cantigas do trovador Pero Moogo, elaborada por José Luís Mêndez Ferrim e aparecida em 1966.

1954. Carvalho Calero na feira de Castroncám. Arq. Fingoi

1965: professor na Universidade

Nos inícios do curso académico 1965-1966 estabeleceu-se em Santiago como professor de Língua Espanhola e Literatura no Instituto «Rosalia de Castro» e, ao mesmo tempo, como professor na disciplina de Língua e Literatura Galega na Universidade de Santiago, onde em 1972 alcançaria a categoria de catedrático.

Começou assim a longa estadia de Carvalho na cidade de Santiago, que perduraria já durante toda a sua vida, embora nos derradeiros anos, já jubilado da docência, dividisse a residência com a cidade de Lugo, onde vivia uma das filhas.

Uma nova vida para a língua

O labor de Carvalho Calero desde o seu posto de ensinante universitário abrange múltiplas facetas: desde o contato pessoal até a investigação mais séria.

Em 1966 aparece a primeira edição da sua Gramática elemental del gallego común, que foi na cultura galega um acontecimento de enorme transcendência.

Em 1970-71 a Real Academia Galega fez públicas umas Normas Ortográficas e Morfológicas. O redator fundamental deste documento foi Carvalho, que teve em conta algumas observações que fizeram outros académicos.

1979: as Normas linguísticas da Junta pré-autonómica

Em 1979, quando a Galiza estreava governo autónomo –com carácter de “pré-autonomia”, pois ainda não fora plebiscitado o Estatuto–, a Junta pré-autonómica decidiu constituir uma comissão que estabelecesse umas normas linguísticas para o uso administrativo e nomeou Carvalho Calero presidente de tal comissão.

As normas que daí saíram admitiam um certo número de soluções duplas, que intentavam estabelecer uma concórdia entre as duas tendências (reintegracionista e isolacionista), deixando ao tempo a tarefa de ir dando prevalência a uma sobre outra.

Porém, depois o governo galego encaminhou a política linguística galega pola via do isolamento a respeito das restantes normas portuguesas.

5. O mestre reintegracionista
(1980-1990)

O mestre reintegracionista

(1980-1990)

Jubilação da docência

O dia 30 de outubro de 1980 Carvalho Calero cumpria 70 anos e atingia assim o que naquele momento era a idade regulamentar de jubilação académica. Terminou deste modo o seu trabalho docente.

Ostracismo e homenagens

Tanto a sua personalidade científica e literária como a sua atitude ética ao longo de tantos anos ganharam-lhe uma geral veneração em amplos âmbitos da sociedade galega. Desde os últimos anos 60 a finais dos 70 Carvalho Calero gozara na Galiza de um prestígio reservado a poucos.

Carvalho Calero, segundo pola esquerda. Arq. José Luís Rodríguez

Porém, o debate sobre o futuro da língua da Galiza (e, conseguintemente, da sua identidade idiomática) situou Carvalho Calero em posição de alvo de uma crescente incompreensão, que se foi transformando em aberta hostilidade, mesmo por parte de alguns dos seus antigos amigos. Por esta razom, a partir de então Carvalho viu-se relegado e marginado, e até desprezado e caluniado de diversos modos, sobretudo desde as distintas instâncias do poder político-cultural.

O galego ou é galego-português ou é galego-castelam

Precisamente porque havia uma consciência comum da injustiça que o galeguismo oficial exercia contra o velho mestre, Carvalho viu-se agasalhado pelo carinho de muitos amigos verdadeiros, de muitos alunos e admiradores. Por isso nos últimos anos abundaram as homenagens à sua pessoa, em certo modo como desagravo perante o ostracismo a que se via submetido por parte do galeguismo oficial a causa das suas ideias reintegracionistas.

Assim, em dezembro de 1981 a Sociedade Cultural «Medúlio», de Ferrol, organizou uma semana de atos em sua honra. Pouco depois, em maio de 1982 várias entidades culturais galegas dedicaram-lhe na Corunha uma nova homenagem. Posteriormente a revista O Ensino dedica-lhe um número de homenagem, com participação de numerosos colaboradores.

Carvalho Calero num congreso organizado pelo grupo da AGAL en Buenos Aires

Entretanto várias instituições outorgam-lhe também honras: em 1981 a Academia das Ciências de Lisboa acolhe-o como membro da corporação, e tanto a Asociación de Escritores en Lingua Galega como a Associação Galega da Língua (AGAL) fazem-no membro de honra.

No que diz respeito às suas relações com o novo poder político galego, Carvalho aceitou a medalha «Castelao» que em 1984 lhe outorgou o governo galego, mas recusou o convite de Filgueira Valverde, na altura membro do governo, para fazer parte do Conselho da Cultura Galega que acabava de instituir-se.

Atividade cultural

Entrementes, continuou trabalhando intensamente, agora com maior disponibilidade de tempo por achar-se livre das obrigas docentes.

1) Labor de publicista

Em primeiro lugar, a sua atividade criadora não só não se deteve mas, aproveitando o tempo agora mais livre, intensificou-se.

Nestes anos submeteu a revisão e reeditou a sua obra literária completa:

  • poesia: Pretérito imperfeito (1927-1961) (1980), Futuro condicional (1961-1980) (1982);
  • teatro: Teatro completo (1982);
  • narrativa: A gente da Barreira e outras histórias (1982) e Narrativa completa (1984);
  • alguns escritos juvenis sobre temas diversos (La fuerza pública en la Universidad de Santiago y otros escritos escolares (1930-1933) (1987).

Ao mesmo tempo, avivou o labor de criação no campo da poesia com dois novos livros: Cantigas de amigos e outros poemas (1980-1985) (198) e Reticências… (1986-1989) (1990, aparecido já postumamente).

Merece salientar-se aqui a sua nova e mais importante criação no campo da narrativa com o romance auto-biográfico Scórpio (1987), que foi recebido com gerais louvanças e premiado pela crítica.

Carvalho Calero en umha imagen do fotógrafo ferrolano Malde.  Arquivo da USC

Prosseguiu também o trabalho no campo da Crítica Literária e da Lingüística com novos livros, recopilando trabalhos novos e velhos. Versam especialmente sobre temas literários as obras Libros e autores galegos (II): século XX (1982), Letras galegas (1984), Estudos e ensaios sobre literatura galega (1989), Escritos sobre Castelao (1989), ademais da reedição da Historia da literatura galega contemporánea (1808-1936) (1981, 3ª edição) e da edição de textos literários (as Cantigas de amor, de escarnio e de louvor (1983) do rei Afonso X o Sábio (em colaboração com Carmen García Rodríguez) e a Antología bilingüe (1983) de Castelao). Tratam mormente temas lingüísticos os livros Da fala e da escrita (1983) e Do galego e da Galiza (1990).

Seguiu colaborando nos jornais, especialmente em La Voz de Galicia, da Corunha, com artigos de divulgação, e fez parte do conselho de redacção da revista Agália, que seria o seu principal órgão de expressão nestes anos, como antes o fora a revista Grial.

2) Ativismo sócio-cultural

O seu labor nestes anos, como sempre fora, não se limitou unicamente a atividades de escritório: também desenvolveu acções públicas e partilhou o ativismo cultural de diversos coletivos.

Eu desexaria unhas primaveras nas que florescese sen receios a unidade e variedade do noso idioma e da nosa cultura

Conversas en Compostela con Carballo Calero (1986) Partilhar

Assim, acompanhou com entusiasmo desde o primeiro momento a fundação da AGAL (Associação Galega da Língua), que se converteria nos anos sucessivos no seu círculo de companhia mais querido, por ele considerado como uma espécie de testamenteiro dos seus ideais linguísticos. Ele co-presidiu os dois primeiros congressos da língua organizados pela AGAL em 1984 e 1987 respetivamente.

Carvalho Calero e Manuel María no primeiro congreso de AGAL. (Foto Martinho Montero)

Igualmente participou nos congressos em torno às figuras de Rosalia e de Castelao, celebrados em Santiago, respetivamente, em 1985 e em 1986. E proferiu conferências em muito diferentes foros, viajando por toda Galiza e por fora dela.

A doença e a morte

Em 1988 apareceram os primeiros sintomas da doença que acabaria tirando-lhe a vida: cancro pulmonar. Entre a clínica e o seu domicílio compostelano achará ainda energias para continuar o trabalho quase até o derradeiro dia.

O 7 de janeiro de 1990, já muito avançada a doença, ainda acode a Ferrol para receber pessoalmente da Câmara Municipal o título de Filho Predileto da cidade.

Faleceu em Santiago, o 25 de março de 1990. Não chegou, pois, a cumprir os 80 anos, que completaria em outubro.

Na tarde do dia 27 celebrou-se o funeral de corpo presente na igreja de São Francisco, de Santiago. Seguidamente o seu cadáver recebeu sepultura no cemitério compostelano de Boisaca; ali, no túmulo número 1439, repousam os seus restos.

Carvalho Calero, Arq. PG

Partilhar:

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email
José-Martinho Montero Santalha
José-Martinho Montero Santalha

José-Martinho Montero Santalha (Cerdido, Corunha, 1947), autor desta biografia é doutor em Filologia e especialista em poesia trovadoresca. É um dos membros fundadores da Associaçom Galega da Língua (AGAL) e integrante da sua Comissom Lingüística. Foi o primeiro presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) desde a sua criação, em 2008.

Este sítio web utiliza 'cookies' próprias e de outrem. Ao premir aceitar, concordas com isto.